Asterix - Layla - o que estou fazendo aqui!
Enquanto sovava uma massa de um macarrão artesanal, cantarolava Layla do Eric Clapton, o acústico ao fundo para criar o clima de uma noite romântica, onde a divisão de tarefas do jantar acontecia.
Layla
You've got me on my knees, Layla.
Sinto o abraço pelo meu corpo, o beijo delicado no pescoço, com a frase: "Você sabe que tenho ciúmes quando canta você essa."
Rindo respondo: "Jamais deveria sentir ciúmes sendo quem me deixa de joelhos."
Um beijo na nuca, que foi nas pontas do pé, me deixa voltar a sovar a massa, enquanto repito com um sorriso de canto "You've got me on my knees"...
Quase dez anos depois daquela cozinha, no mesmo dia em que compro as passagens para comemorar três anos do fim, estou no Asterix, poucos passos de casa e defendendo que Engenheiros do Hawaii é melhor que Detonautas, enquanto a doutora em geofísica na minha frente discordava com a calma de quem já estudou mais solos piores que essa discussão. Canceriano não esquece data, nem as que deveria. Não acredito em signo, mas confesso que às vezes ele acerta.
Junto das conversas o julgamento sobre escolhas politicas do Tico Santo Cruz, na busca de não separar o artista da obra.
Pra doutora, as melhores composições do Brasil são do Detonautas. Discordo antes mesmo dela terminar a frase.
Talvez ainda seja o Rock in Rio de 2019. Detonautas e Foo Fighters no mesmo dia, fiquei em São Paulo, em um line-up imperdível até hoje, porque ela não quis ir pro Rio. Lembro do motivo e exatamente da briga, mas esse eu guardo.
Naquela noite assistimos juntos pela televisão, e no meio do show ela virou pra mim e disse que a gente devia ter ido. Devia. Não respondi nada. Acho que foi ali que comecei a refletir na venda da alma, um pedaço de cada vez, na fuga das brigas.
Desde então, imagino que esbarrar com ela por acaso, numa esquina da Paulista, no metrô, a conversa que passa na minha cabeça é sempre a mesma, e quem escreveu nem fui eu:
Talvez eu diga, minha amiga
pra ser sincero, prazer em vê-la
Até mais (até mais)
Nunca aconteceu. Ensaiei tanto que acho que perdi a vez.
Layla, eu cantava.
O nome dela com a mesma sonoridade, mas algumas letras de diferença.
Depois vieram na memória os quatro dias de Rock in Rio, recentemente e já sem ela, e foi bom, foi muito bom, mas faltava uma coisa que eu nem sabia que estava esperando.
Foo Fighters eu só fui ver em 2026. Sete anos. Sete anos pra cantar no meio da multidão uma música que eu tinha ouvido do lado de alguém que dizia que a gente devia ter ido.
Detonautas eu ainda não vi. Talvez por isso eu discuta tanto com a doutora.
A chance de um dia contar isso pra ela é quase zero, já não somos nem amigos. Então conto pra doutora, que ri, e uma simples quarta-feira vira discussões variadas, mudanças climáticas, amigos que estão vacilando e deixando a dúvida se valem a pena continuarem amigos.
A conversa envolvendo o rock nacional inevitavelmente também caminha para Pitty, que me desbloqueais memórias.
Quando menciono que já recebi na Sua Estante de uma pessoa, a Doutora se empolga, curiosa por trás das histórias que entre idas e vindas, nos seus detalhes, também influenciou o relacionamento que trouxe a lembrança do inicio.
Talvez eu volte nessa história que começa com 20 anos atrás.